Análise de "Batismo" e "O homem e a cidade"
Após a leitura desses dois textos, consegue-se identificar, além do estilo do autor, as características peculiares desse gênero denominado “crônica”.
É sabido que a crônica se modificou muito desde o seu surgimento até hoje, porém ainda se encontram, nas crônicas modernas, resquícios das antigas. Na época do seu surgimento, a linguagem destes textos tinha um caráter documental, devido a sua publicação em jornais e folhetins. As duas crônicas que analiso não têm mais este caráter, no entanto sua linguagem também é concisa e de fácil compreensão, não havendo excesso de ornamentos nem frases muito elaboradas.
Outra característica da linguagem dessas duas crônicas é o empenho do autor em dar-lhes um cunho literário: não são textos informativos e sim textos nos quais se percebe um certo lirismo, e que, ao relatar situações do cotidiano, adquirem ares de obra de arte.
Tanto em “Batismo” como em “O homem e a cidade” o autor trabalha com sutilidade as belezas do cotidiano, que, às vezes, passam despercebidas: em “Batismo”,tem-se o relato de um homem que, andando na praia, vê uma mulher brincando com seu filho; em “O homem e a cidade”, um narrador em primeira pessoa narra o redescobrimento do prazer de andar pelas ruas do centro da cidade, lembrando da amada que se foi. Não há, portanto, um enredo propriamente dito, no qual várias ações se desenvolvem, há apenas a descrição de fatos triviais escritos de tal forma que suscitam reflexões.
Devido à brevidade e concisão da crônica, essas reflexões se dão em um nível acessível que está ao alcance do homem comum, não é preciso ser um intelectual nem se dedicar a longos estudos para que se apreenda o significado de uma crônica.
É importante também notar que a crônica, assim como qualquer obra que se pretenda literária, é polissêmica e faz uso de símbolos. A mulher vista na praia em “Batismo” pode ser vista como uma metáfora da natureza – é uma mãe transmitindo o seu legado para a cria que propagará a sua espécie: “Assim, com a silhueta cortada contra a luz que se reflete no chão molhado, ela parece estar nua com seu menino. É apenas uma jovem fêmea que ensina o mar e o mundo à sua cria; transmite-lhe a experiência da espécie e o sentimento dos deuses; na sua graça matinal esse batismo tem ma beleza solene”.
Da mesma forma, o trivial passeio pelo centro em “O homem e a cidade”, tem o seu significado, ele serve de estímulo à introspecção e à saudade da mulher amada: “E vou andando, tomo um café, sinto uma grande ternura pela cidade grande onde outrora te amei tanto, tanto, oh! Para sempre perdida Leonora”.
A crônica é uma forma de literatura que vem se difundindo e popularizando a cada dia. Temos hoje cronistas famosos como o próprio Rubem Braga, Luis Fernando Veríssimo e Fernando Sabino, por exemplo.
Jaqueline Bohn Donada